sexta-feira, 24 de junho de 2011

PLANO PRELIMINAR PARA MESTRADO EM EDUCAÇÃO NA UFRJ - 2005 - APROVADO

 Autoria: Maria de Deus Oliveira de Siqueira Alves
       A  ÉTICA  E  A  EDUCAÇÃO


           Durante a graduação e pós-graduação a observação em torno dos procedimentos e postura de doutores e mestres, conduz a reflexão da grande importância do aprendizado dos principais conceitos filosóficos que capacitam para uma prática competente e ética no processo educativo. Diante desta percepção, tenho como objetivo profissional é tornar-me uma orientadora em Projetos e Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), promover a Educação dentro dos princípios éticos da Filosofia, aprimorar conhecimentos através de pesquisas e poder dividi-los com seriedade e compromisso em prol da construção nacional da cidadania.
O filósofo Henri Bérgson reflete em: As duas Fontes da Moral e Religião, como dois tipos de existência:  A Moral Aberta, interpretada como uma dinâmica  ligada a sedução e atração. Ele busca respostas para satisfazer o problema da concepção moral e fundamentá-la verdadeiramente. Estaria essa baseada estritamente na orientação  racional Kantiana, ou, como era exposta pelos medievais, com o pensamento transcendental,  baseado na fé? Nem tanto humano, nem tanto a Deus. A noção de moral parecia estar situada numa infra-estrutura formada pelo instinto natural do  homem em sua convivência dentro da sociedade, supra intelectual. A aceitação do misticismo através de uma religião dinâmica; No seu estudo sobre a “Moral Fechada”,  o aspecto social está intimamente ligado ao fator moral que produz inicialmente uma consciência dirigida à sociedade, uma ação irresistível que  torna a personalidade do homem reduzida ao cumprimento social sem poder manifestar o seu desejo.
É evidente que o pensamento do Bérgson, se remete à salvação do homem diante do conformismo social, indo de encontro à própria realização pessoal. A moral faz parte da satisfação ao cumprimento do pensamento coletivo, “o todo da obrigação” (apud/SILVA. 2001, p. 47), por um  instinto social que instiga a  satisfazer  a rigidez de  uma sociedade fechada e que não pensa  e nem visa o bem da  humanidade como um todo.  O aspecto moral compreende obedecer a  conjuntos de regras e hábitos já traçados pela sociedade, restando ao indivíduo  apenas o esforço em adaptar-se sem se dar conta do caráter obrigatório das medidas e regras, sem questionar os valores explorados e qual a sua real necessidade a ser cumprida, sem nenhuma exigência racional, nem algum postulado metafísico, mas apenas a uma sistematização de aquisição de costumes pelo homem já predisposto a praticar certas normas sociais.        
         Os estudiosos da administração levaram adiante o estudo do francês e chegaram à conclusão que para transformar um contexto nocivo é preciso que a ética permeie todos os sistemas  que norteiam a  vida do ser humano, principalmente no âmbito de trabalho. Os dirigentes das empresas precisavam  ter conhecimento e discernimento dos valores filosóficos que fundamentam o viver humano, tanto nos aspectos políticos, científicos e culturais. Era necessário que os gestores responsáveis pela direção de pessoas e em diversas categorias profissionais, durante a sua formação buscasse aprender, adicionar  e internalizar os procedimentos essenciais contidos na filosofia, psicologia, sociologia, pedagogia etc., para gerenciar com seriedade e responsabilidade de forma democrática e justa, ajustando novos paradigmas para a sociedade em prol do seu desenvolvimento e não só favorecer apenas aos donos do dinheiro. Era preciso promover transformações sociais, não se corromper diante da alienação e saber dirigir os conflitos de classes, estabelecendo acordos  entre empresas e empregados numa determinada instância de satisfação para ambas as partes.
O homem não pode viver sem trabalho porque significa a segurança das suas necessidades, o pão, e mais as realizações de ensejos. O empresário precisa da força de trabalho do empregado porque sem ele não há produção e sem ação produtiva, também não haverá divisas, portanto, é preciso garantir a cidadania do trabalhador e essa só será respeitada através da ética empresarial, permitindo e promovendo as  transformações sociais, tanto de forma verticalizada e horizontalmente, isso só acontece se houver competência e ética por parte dos gestores.        
         Durante longos anos o mercado de trabalho foi alienador perante as crises sociais, formando seres acríticos, comprometendo o processo de ensino-aprendizagem, trazendo conseqüências dolorosas para a sociedade e a decadência do seu próprio prestígio e status.. Hoje a prática docente deve ser reflexiva, visando desenvolver o ser humano em  sua totalidade, humanizando, edificando  valores e cultuando a afetividade porque ao longo do tempo, a educação tornou-se uma cultura alienada aos fatores  dominantes. O professor um canal a serviço da pedagogia tradicional por meio de um ensino obsoleto e/ou  tecnicista para formar servis ao sistema capitalista. Desempenhava um papel passivo,  apático,  retransmissor de conhecimentos, sem uma proposta política e pedagógica para o desenvolvimento cognitivo, não se importando em produzir saberes e guiar os jovens para uma conduta ética e moral em busca da autonomia.
         Urge reformular esse contexto. Mudanças radicais na formação dos professores para torná-los geradores do seu próprio conhecimento, pesquisadores e reflexivos sobre a própria prática, reconstruírem a forma de pensar, capaz de planejar e intervir com novas dinâmicas. Um profissional politizado, para educar e adicionar as pessoas desde os valores físicos, morais, éticos, sociais e saberes cognitivos para o fortalecimento intelectual, liberdade de expressão, saber criticar, discernir, estabelecer seus próprios conceitos e administrar a sua própria vida. Essa é finalidade real da Educação, construir o cidadão com aptidões e finalidades.
Outra função importante para esse novo tipo de educador: gestão da classe com competência.  Saber realizar  todas as funções pedagógicas, desde o estabelecimento de regras, atividades, atitudes com  democracia, criatividade, autonomia,  elaborando propostas de ensino com técnica própria e viável para a aplicação do currículo, relevando a importância da obediência aos princípios morais, democrático e éticos que valorizam o ensino pela garantia da cidadania. A educação é um ato político porque envolvem as relações de poder e que legitima a ética contra a servidão por meio da prática docente das tendências contemporâneas em busca do conhecimento científico, compromisso profissional na formação humana. Saber unir a teoria com a prática, porque a práxis é mais breve forma de se chegar ao conhecimento.
Através da ação se constrói um conhecimento de forma concreta e integral. Na atualidade há uma preocupação benéfica por parte das instituições superiores de ensino no país, em pesquisar as multiformas para  aprimorar os cursos de Licenciatura, Pedagogia, Normal Superior etc., na formação dos docentes para  dotá-los de  variados saberes e qualificá-los de maneira competente para mobilizar o educando ao pensamento reflexivo através da pesquisa, de uma  formação mais  abrangente sobre os aspectos mais importantes, a consciência social, política, científica e principalmente a auto-avaliação sobre a atitude da sua própria conduta docente  É a partir de uma nova produção na graduação, com novos critérios éticos, epistemológicos, didáticos por uma pedagogia renovada, baseada na concretude da realidade física, proporcionar  novos benefícios na proposição do ensino, impedindo a alienação, humanizando e orientando os discentes para dar sentido e significado para a sua existência. Viver o presente e o futuro com dignidade e igualdade.
 A consciência crítica dos professores assimilada pelos sujeitos em formação é fundamental  para a evolução do processo educativo para que esses saibam avaliar o seu posicionamento diante das adversidades da vida. É preciso que o sistema educacional trabalhe pelo resgate da dignidade do discente  e não deixá-los tornarem-se vítimas da politicagem positivista alienadora, sabendo interpretar o mundo de forma transparente. Trabalhar a resiliência através da alteridade porque durante séculos a pedagogia teve um falso conceito para competência. Centrada apenas na transmissão dos conhecimentos por meio de uma educação bancária, criando uma  oposição entre competência e desempenho, apoiada na  concepção clássica que considera as habilidades como uma faculdade genérica, uma potencialidade  de qualquer mente humana. Hoje a competência é considerada como saber resolver todos os problemas corretamente através da prática, baseada no conhecimento da teoria. É impossível se inferir a competência, mas, essa não existe sem aprendizagem.  A ação determina o ponto de partida  para  a aprendizagem.  
No  conceito da palavra  competência, dentro da Educação, há uma certa dificuldade para se definir o termo. Seria uma “noção geral” (apud/GHEDIN. 2005, p. 14), “Idéia de comunicação em rede e integração de funções” (idem).  Mas na realidade essa palavra dentro da cientificidade é “uma teia de relação entre saber, saber fazer e saber-ser” (idem, p. 15). Enfim, competência é possuir uma gama de conhecimentos em geral e envolvimentos sociais  como os valores, idéias e crenças culturais. Um professor competente deve acumular: saberes eruditos  de conhecimento, experiência,  habilidade, resolver situações-problemas, saber planejar e desenvolver projetos, dirimir, improvisar, saber avaliar, conceituar, disciplinar sem repressão e principalmente formar cidadãos autônomos, administrando a docência com ética.
O enfoque dado pelas políticas públicas quando instituída,  versava sobre a necessidade de ser edificada para a educação competências no processo formativo. Durante  o governo de Fernando Henrique Cardoso possuía  um caráter tecnicista, dessa forma o professor tinha que ter realmente uma competência específica, mas o caráter que se dá hoje para a palavra “competências”, como um processo transformador, criativo e educativo e responsável pela autonomia do indivíduo, não quer dizer que um bom professor, é aquele que sabe pesquisar e refletir, mas sim porque é  competente no campo de vista ético e político.
Culpar o professor exclusivamente pelo fracasso escolar por sua falta de competência, é uma  ideologia propagada pelos sucessivos governos que não assumem as suas responsabilidades. O  tremendo descaso pelas propostas sociais,  não só pela educação, mas em todos os benefícios que deveriam funcionar com perfeição para estabelecer a cidadania, fracassou em todos os campos: na ética, em que se vê o descrédito no discurso político; no compromisso político para formar os cidadãos porque as escolas se encontram num verdadeiro caos e finalmente na moral pela falta de credibilidade de gerenciamento e tratamento inadequado pelas  políticas públicas brasileiras dirigidas ao cidadão, que realmente precisam serem recompensado por tanto sofrimento. Culpar o professor é a forma mais fácil de evitar explicar onde realmente estão as falhas do Estado, ausência de administração e vontade de conceber o direito ao homem de conquistar sua liberdade.
A competência do ensino ético para Paulo Freire, baseava-se numa pedagogia libertadora. Construir o ser humano através do diálogo e conscientizá-lo de que sua condição social e cultural insatisfatória é o resultado do conformismo de quem vive preso a um passado histórico alienador. Transformar esse sujeito de forma que promova sua inserção no movimento dialético epistemológico,  é transformá-lo como o objetivo da educação e não como objeto desta. Lutar  pela igualdade e contra a  opressão inconscientemente para que percebam que os indivíduos não precisam apenas da solidariedade dos momentos funestos das catástrofes, o homem não quer apenas o sentimento de compaixão dos segmentos positivistas, ele quer pertencer, partilhar e desfrutar de todos os anseios e benefícios da cidadania.
Só podemos transformar uma sociedade através da ética, agindo com responsabilidade, promovendo ações libertadoras em prol dos excluídos e oprimidos. A justiça só se concretiza dentro de uma sociedade justa, onde os paradigmas devem ser alicerçados e  trabalhados na formação de  bases políticas, sociais, culturais, para que todos os indivíduos tenham  autonomia sócio-político-econômico, um processo que vise à construção de uma sociedade democrática, elaborada por projetos-políticos-pedagógicos capazes de delinear competências para o povo em geral, elaborados pelos que detêm o saber, e não o poder, porque a educação nunca pode ser neutra mas sim transformadora da sociedade  e comprometida com a liberdade pessoal.
 A liberdade é o ponto central da educação na concepção de Paulo Freire porque prolifera o humanismo com justiça para todos. O sujeito objetiva a ação através da sua subjetividade, sujeito de si, com liberdade, consciência e responsabilidade. A libertação proposta por Freire significa um corte com a lógica imperialista que se valoriza mais o “ter” (que é o não-ser) do que o “ser”  (o ser em si),  é a vítima inocente e inconsciente da mistificação político pedagógica das elites a que está submetido, impedindo as manifestações, discriminatória de raça, gênero e classe, principalmente sobre aqueles que não possuem consciência do seu direito de liberdade do “ser” por um sistema que condiciona e oprime a “não-ser”, soterrar os sonhos, escraviza as idéias e a utopia, sendo essa última essencial para a vida porque tudo que antes era considerado uma ilusão, como o telefone,  o cinema, o homem ir a lua etc. também foram histórias de ficção no passado e hoje são realidades tão comuns que nem se percebe como foram importantes para a construção da nossa história.
È dever de o educador formar competências e difundir dentro do espaço escolar a  democracia para construir  cidadãos autônomos, rompendo com a história mundial de opressão e dominação.  Edificar das ruínas no homem pós-moderno, um compromisso ético-político-educativo pela prática da justiça, transformando o mundo num lugar ideal de vida para todos. Não se pode pensar o ato pedagógico como uma ação neutra, mas sim uma verbalização profundamente consciente e competente, sem repressão, sem omissão, anti-marginalizadora, não excludente e livrando o homem menos privilegiado da alienação imposta pelas ideologias antiéticas.
Através da dialética a educação integral deve fluir para uma aprendizagem formadora em senso  crítico e com a finalidade de transformar todos os seres humanos em cidadãos, cônscio dos seus direitos e deveres. Desmistificar qualquer barreira  contra a natureza antropológica de liberdade imbuída no homem e permiti-lo vislumbrar o  engano promovido pelo neoliberalismo mercadológico, sem compromisso responsável pela libertação política e social, mas simplesmente um sistema opressor e que cada vez mais estratifica a sociedade de forma miserável.
 A educação ao longo de décadas tem sido perversa e pervertido as relações humanas, condenando as classes trabalhadoras ao conformismo por ser essa a lógica do capitalismo. O sistema centro-europeu e de periferia, agem com injustiça e faz mergulhar a dignidade e liberdade do ser humano no ostracismo, por isso a educação sistematizada é a responsável pela substância e essência da consciência humana, portanto, promover o filosofar é imprescindível para idealizar um novo patrimônio educativo e qualidade de vida para a humanidade.

REFERÊNCIAS

CHINAZZO, Cosme Luiz. Filosofia da Educação. ULBRA. Canoas: RS, 2004.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança. Paz e Terra: RJ, 1993.
____________. Pedagogia da Autonomia – saberes necessários à prática educativa.  Paz e Terra: SP, 1996.
GHEDIN, Evandro. ALMEIDA, Neylanne Aracelli de. BARRADAS, Raimundo de     Jesus Teixeira. Ética e Formação    Profissional em Educação. UEA – Pós-Graduação em Pesquisas Educacionais. LIVRO 4. BK Editora: AM, Livro 4. 2005.
PELOSI, Marly Sauan.  Filosofia da Educação. EAD. Pós-Graduação a Distância. Coordenação Pedagógica. UFRRJ/Instituto de Educação.EB. RJ, 2005.
RIOS, Terezinha Azeredo. Ética e competência. Questões da nossa época. 15 ed., vol. 16. Cortez: SP, 2005.
SILVA, Adelmo José da. Departamento das Filosofias e Métodos – FUNREI.-  Anais  da Filosofia.  Revista de pós-graduação. Fundação de Ensino Superior de São João Del Rei - MG – Nº. 8 - 1. Filosofia / Periódico – Julho de 2001, p. 45 a 56.
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