MANTENHA SUA AGENDA DE PAPEL


by Maria de Deus Oliveira

A saúde pública no Brasil sempre viveu no caos, porém quem se importa? "Pimenta nos olhos dos outros é refresco", mas sempre ouvi dos meus amigos médicos, em caso de acidente, dirigir-se ao melhor hospital público porque lá existem as melhores equipes de especialistas e apesar da precariedade de pessoal para atendimento possui equipamentos para salvar vidas, só depende da sorte em ser atendido a tempo. Eles têm razão, ninguém é peru pra morrer de véspera e comprovei isso quando sofri um incidente.
Sabe como é família. Briguinhas, algumas mágoas, ressentimentos e para me descontrair, resolvi passar uns dias no Rio de Janeiro, visitar minha irmã mais velha, Ana Helena que é uma mulher super-divertida e adora passear. Infelizmente ela estava de viagem marcada para casa de meu pai, mesmo assim fiquei na casa dela aguardando seu retorno com minha sobrinha que trabalhava o dia todo, a noite ia direto para a universidade e meu cunhado que depois de aposentado não aguentou o marasmo da vida e resolveu cursar uma faculdade no período da tarde.
Todos sabem, quando depressivos, tendemos a nos entupir de comida, com a desculpa de estarmos descompensados, então, após uma hora depois do almoço, a formiga que vive dentro de mim estava faminta. Abri a geladeira e peguei a primeira delicia que encontrei, freneticamente. O pirex começou a querer correr da minha mão e no meu afã da comilança, escorregou e com o medo que ele quebrasse dei o bote, mas já era tarde a louça partiu-se ao meio e, entretida com o meu lamento pelo desperdício do doce, nem percebi que havia cortado meu pulso do braço direito. Senti um ardor e foi quando eu vi meu sangue jorrando que nem uma cachoeira. Fiquei atônita e pensava: eu vou morrer! Estava tremula de pavor e me ajoelhei pedindo a Deus perdão pelos meus pecados. E meus sete amores? (Meus quatro filhos e três netos) Eu nunca mais os veria? Olhei para o balcão, o chão, minhas roupas, tudo encharcado de sangue. Voltei à razão, prendi o pulso com o polegar esquerdo e mesmo com as pernas em frangalhos, abri a porta com dificuldade e toquei sofregamente a campainha do vizinho. A auxiliar abriu a porta. Quando me viu, não sei o que imaginou, correu a gritar e desceu para o segundo andar onde mora um médico. O patrão dela infelizmente não anda, usava cadeira de rodas depois que sofreu um acidente de carro, mas ouvindo o nosso desespero veio se arrastando pelo chão e acredito que pensou da mesma forma que ela, tentativa de suicídio, porque nunca vi uma pessoa no estado dele, bater em retirada daquele jeito, sumiu rapidinho, afinal ninguém quer dar testemunho de morte. Não encontrando o doutor, Vera procurou o porteiro. Só estávamos nós quatro no prédio. Eles subiram pelo elevador e gaguejavam a perguntar se eu queria um táxi, sem questionarem o motivo da "tragédia".Respondi que sim, mas precisa saber o destino, eu não conhecia o Rio. Trouxe a moça para meu quarto, entreguei meu celular. Nervosa, ela não conseguia acessar a lista de telefones do meu aparelho, totalmente diferente do dela. Nesse momento percebi o mal que a tecnologia nos proporciona, nunca tive a preocupação em decorar telefones e nem sequer agenda eu possuía. Não sei ao certo quanto tempo passou, lembrei que em cima do computador do quarto da minha sobrinha, havia um calendário da firma que ela trabalhava. Eu já estava com a mão cansada de segurar o sangramento quando conseguimos falar com Helô. Esta pediu-me calma e aguardasse socorro. Ela ligou para uma amiga da sua igreja e em menos de quinze minutos o pai da jovem que morava bem próximo, chegou e levou-me para a emergência de um dos hospitais do meu plano de saúde. A médica de plantão, uma cardiologista atendeu-me e colocou um torniquete no meu pulso, depois de constatar que eu precisava de um cirurgião vascular. Aconselhou-me seguir de imediato para o hospital público mais próximo onde encontraria com certeza um especialista. Foi onde vivi na pele a falta de humanismo, de humildade e a grande indiferença dos atendentes. Acostumados com o sofrimento alheio nos tratam como se estivéssemos atrapalhando seu serviço. Mostrei que minha mão estava gelada e roxa, não se sensibilizaram, continuei de molho e em pé por mais ou menos duas horas.
Tenho outra sobrinha, Ana Paula, médica cirurgiã vascular, que mora em Miami. Meu cunhado, Paulo Cezar, pai dela e da Helô, a essa altura já havia trocado de lugar com o senhor que gentilmente me socorrera. Ele ligou para Ana e depois passou o celular para mim. Depois da investigação ela concluiu que as veias não haviam sido rompidas totalmente porque estavam jorrando sangue para fora. Num relampejo lembrei que meu marido, há muitos anos atrás, comprara uma galinha, e a empregada faltou. Eu tive a audácia de acreditar em ter coragem de abatê-la. Tentei o passo a passo que já havia visto outras pessoas fazerem, mas não muito convencida. Puxei as penugens do pescoço levemente e quando passei a faca, a ave correu para um lado e eu para o outro, direto para a rua. Só entrei em casa quando meu marido a levou embora, viva graças a Deus. Nunca mais me atrevi novamente abater um galináceo e virei amante de queijo como proteína por muito tempo, mas aquela lembrança me fez acreditar que eu escaparia dali com vida, era questão de paciência e fé. Minha sobrinha ordenou que eu retirasse o curativo e eu resistia porque sabia ser cansativo pressionar as veias para não sangrarem. Ela insistiu e disse que se eu demorasse muito tempo em ser medicada poderia causar uma isquemia no meu braço. Já trabalhara ali e sabia que sangramentos era prioridade. Nesse momento eu criei coragem e arranquei os esparadrapos do braço. O sangue jorrou para cima. Meu cunhado e o pessoal em volta amarelou, mas não deu outra, um atendente colocou a lixeira em baixo para não sujar mais ainda o chão com o meu sangue e em segundos apareceram três médicos que me levaram para a sala de emergência, estancaram para ver a gravidade, anestesiaram, colaram as veias, deram pontos espaçados para não ocorrer outras perfurações e a recomendação de não fazer esforço até retirar os pontos, isso significava sete dias.
Agradeci a Deus por minha vida e daqueles que me ajudaram na hora da aflição. Em casa comecei um joguinho para me distrair, associação de ideias, realmente ajuda a gravar os números de telefones. Quando tirei os pontos, comprei uma agenda de papel e em todos os lugares possíveis, anoto os fones das pessoas mais importantes da minha vida. A tecnologia é necessária, continuarei a usá-la, mas sem confiar plenamente, isso foi um alerta.
O fato mais interessante foi ter que me justificar que eu não atentei contra minha vida. Por muito tempo escutei piadinhas que desejei morrer e depois me arrependi. Não desejo a ninguém que sinta o medo imprevisto pelo qual passei. Realmente o inesperado causa um pânico incontrolável e só confirma a nossa vulnerabilidade diante da vida, portanto, vivamos plenamente, mas atento aos perigos, eles podem ser irreversíveis e mesmo sofrendo num hospital público, eles possuem todos os especialistas e os equipamentos das diversas áreas de atendimento a saúde pública e se não for nosso dia, sobreveviremos...
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